Tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea)

Classe: Reptilia

Ordem: Testudines

Família: Dermochelyidae

Características gerais

A tartaruga-de-couro é um dos maiores colossos dos oceanos. O maior indivíduo já registrado media 3 metros e impressionantes 916 kg — um verdadeiro gigante marinho que parece ter atravessado a era dos dinossauros.

É a maior tartaruga marinha do mundo e a única sem carapaça rígida: em vez de placas ósseas, possui uma pele espessa, flexível e resistente, semelhante a couro. Essa estrutura única permite suportar mergulhos superiores a 1.000 metros, marca que nenhuma outra tartaruga alcança.

Com corpo hidrodinâmico e nadadeiras enormes, percorre milhares de quilômetros em migrações que atravessam mares quentes e frios. Possui uma capacidade incomum de manter a temperatura corporal acima da água, algo raro em répteis.

Sua dieta é quase exclusivamente composta por águas-vivas, e sua boca adaptada impede que presas gelatinosas escapem.

Reprodução e ciclo de vida

À noite, as fêmeas sobem às praias para cavar ninhos profundos e depositar 60 a 100 ovos, cujo sexo depende da temperatura da areia.

Ao nascer, os filhotes enfrentam uma corrida pela sobrevivência até o mar, evitando predadores, iluminação artificial e obstáculos criados por atividades humanas.

Ecologia

A tartaruga-de-couro é essencial para o equilíbrio dos ecossistemas marinhos, controlando populações de águas-vivas e influenciando a dinâmica das cadeias alimentares.

Seu papel ecológico é tão importante quanto sua raridade e vulnerabilidade.

Ameaças

Apesar do tamanho, força e história evolutiva antiga, a espécie é extremamente vulnerável às atividades humanas. Entre as ameaças mais graves:

  • Pescaria de espinhel oceânico (longline)

  • A mais devastadora. As tartarugas são capturadas acidentalmente durante suas longas migrações, confundindo iscas e ficando presas nos anzóis.

  • Redes de deriva

  • Pesca de arrasto

  • Colisões com embarcações

  • Poluição luminosa

  • Plástico, frequentemente confundido com águas-vivas

  • Felizmente, iniciativas como o Projeto Chelonia mydas (PCM) trabalham intensamente na proteção de ninhos, monitoramento e educação ambiental.

Vivência

Meu encontro com a tartaruga-de-couro marcou minha vida para sempre.

Eu nunca tinha visto uma até participar de uma abertura de ninho em Vila Velha. Foi ali que, segurando um filhote minúsculo nas mãos, vi meu primeiro Dermochelys. Um animal que parecia lenda. Parecia mito. E estava vivo ali, diante de mim.

No ano seguinte, em Regência junto com o PCM (Projeto Chelonia Mydas), vivi uma das experiências mais impactantes da minha vida. Durante o monitoramento noturno, encontramos a famosa meia lua — o rastro deixado por uma tartaruga-de-couro adulta subindo a praia.

Deitei no chão, coloquei a cabeça na areia e fiquei olhando para a escuridão.

E então eu vi.

Aquele contorno gigantesco, a silhueta de uma montanha viva surgindo lentamente. Cada movimento das nadadeiras parecia um trovão abafado. A respiração dela ecoava, profunda, ancestral — como se um pedaço do oceano tivesse ganhado forma diante de mim.

Ela não completou a desova, mas só estar ali já me transformou.

O cenário parecia montado pela própria natureza: céu estrelado, ondas com bioiluminescência e o silêncio absoluto que existe em Regência de madrugada.

Essa noite marcou tanto que rendeu minha primeira tatuagem — o símbolo de uma tartaruga com o símbolo do renascimento dentro. Porque naquele dia, eu renasci.

Entendi minha missão: estar ali pelos animais, proteger esses gigantes suaves que carregam o peso da sobrevivência em cada subida à praia.

E 2024 foi o auge dessa jornada.

Voltei para Regência com o PCM (Projeto Chelonia Mydas) novamente e presenciei uma desova completa de uma tartaruga-de-couro — do momento em que ela saiu do mar até o instante em que cobriu o ninho. Eu quase chorei.

Ver um animal que pode chegar a 3 metros e quase 1 tonelada, tão poderoso e tão vulnerável, é algo que transforma. É uma experiência que não te deixa sair o mesmo.

Ver uma tartaruga-de-couro ao vivo é encarar um fragmento da pré-história.

Um lembrete de que ainda existem gigantes nos oceanos — e que eles precisam, desesperadamente, de proteção.

Tartaruga-de-couro

(Dermochelys coriacea)