
Tartaruga-verde (Chelonia mydas)
Classe: Reptilia
Ordem: Testudines
Família: Cheloniidae
Características gerais
A tartaruga-verde é uma das espécies mais emblemáticas dos mares tropicais e subtropicais. Seu nome vem da coloração interna esverdeada, resultado de uma dieta predominantemente herbívora composta por algas e capim-marinho. É considerada uma verdadeira engenheira dos ecossistemas costeiros: quando adulta, mantém prados marinhos saudáveis, controla o excesso de algas e aumenta a biodiversidade desses ambientes.
Apesar da aparência calma, é uma migradora de longas distâncias. O maior indivíduo já registrado atingiu 1,53 m de comprimento curvilíneo de carapaça e mais de 315 kg. Juvenis menores vivem longe da costa, na fase oceânica, viajando por correntes e áreas de sargaço. Quando crescem, aproximam-se das regiões costeiras — etapa da vida em que ficam mais expostas às pressões humanas.
Reprodução e ciclo de vida
As fêmeas retornam às praias onde nasceram para desovar, cavando ninhos profundos onde depositam, em média, 80 a 120 ovos. A temperatura da areia determina o sexo dos filhotes. Após a eclosão, os filhotes atravessam a faixa de praia e entram no mar, entrando em uma fase oceânica criptogênica que pode durar anos.
Com o crescimento, recrutam-se novamente às áreas rasas e produtivas dos litorais, onde passam o restante da vida. Essa fase costeira, embora essencial ecologicamente, as coloca em contato direto com uma série de ameaças ambientais e antropogênicas.
Ecologia
A tartaruga-verde é fundamental para a manutenção de habitats costeiros. Seu comportamento herbívoro promove:
controle do crescimento de algas;
manutenção de prados marinhos;
aumento da biodiversidade associada a bancos de capim-marinho;
ciclagem de nutrientes em áreas rasas.
Por atuar como "podadora" natural desses ambientes, sua presença favorece peixes, invertebrados e inúmeras espécies que dependem desses prados para alimentação e abrigo.
Ameaças
As tartarugas-verdes estão entre as espécies mais impactadas por atividades humanas, especialmente por viverem em zonas costeiras. Suas principais ameaças incluem:
1. Captura acidental (bycatch) em pesca costeira
É o impacto mais frequente e letal. Elas sofrem com:
redes de emalhe;
redes de espera;
arrasto;
espinhéis artesanais;
linhas recreativas.
Por precisarem subir à superfície para respirar, qualquer emalhamento pode resultar em afogamento. Ferimentos graves, choques traumáticos e pneumonia aspirativa também são comuns.
2. Colisões com embarcações
O tráfego intenso em áreas costeiras causa fraturas, traumas e lesões internas.
3. Ingestão de plástico e resíduos
Sacos plásticos são facilmente confundidos com águas-vivas e algas. Microplásticos podem ser ingeridos com a vegetação marinha.
4. Poluição e deterioração dos habitats costeiros
As áreas onde vivem estão entre as mais impactadas pelo ser humano. Entre os fatores mais críticos estão:
esgoto doméstico sem tratamento;
poluição industrial;
eutrofização e excesso de nutrientes;
sedimentos suspensos;
herbicidas e fertilizantes que chegam pelos rios.
Esses elementos diminuem a qualidade da água, sobrecarregam o sistema imunológico e aumentam a incidência de doenças.
Doenças, parasitas e pressões costeiras
A vulnerabilidade da tartaruga-verde está diretamente ligada à sua dependência dos ambientes costeiros — justamente os mais alterados e poluídos.
Fibropapilomatose (FP)
Uma das enfermidades mais marcantes da espécie, associada ao Chelonid herpesvirus 5. Sua ocorrência está fortemente ligada a ambientes degradados.
Principais impactos:
tumores na pele, nadadeiras, olhos e boca;
dificuldade de nado e locomoção;
prejuízo na alimentação;
perda de visão em casos perioculares;
tumores internos prejudicando órgãos;
imunossupressão.
Fatores ambientais relacionados à FP:
eutrofização e excesso de nutrientes;
esgoto e resíduos urbanos;
metais pesados;
aquecimento das águas;
estresse ambiental crônico.
A combinação desses fatores favorece a ativação viral e o crescimento tumoral.
Sanguessugas (Ozobranchus spp.)
Parasitas comuns em tartarugas-verdes, especialmente em indivíduos debilitados.
Impactos diretos:
irritação e feridas;
infecções secundárias;
aumento do gasto energético;
estresse fisiológico.
Relação com a FP:
As sanguessugas podem carregar o herpesvírus e atuar como vetores, facilitando a transmissão entre tartarugas enfraquecidas.
Cracas, algas e outros epibiontes
São naturais, mas o excesso é indicativo de doença ou debilidade.
Excesso de epibiontes indica:
imunidade baixa;
hidrodinâmica prejudicada;
maior gasto de energia ao nadar;
maior chance de feridas, infecções e afecções secundárias.
Animais com casco muito sujo geralmente chegam a centros de reabilitação em estado crítico, com FP avançada, desnutrição ou sequelas de captura.
Minha vivência com a espécie
Trabalhar com tartarugas-verdes transformou completamente a forma como eu enxergo a conservação marinha. No IPRAM, deixei de ver essa espécie apenas como um ícone do oceano e passei a conhecê-la de perto — em sua força, fragilidade e resistência.
Foram milhares de atendimentos: juvenis, subadultas, adultas; debilitadas, tumoradas, amputadas, desnutridas... enfim... Cada uma carregava uma história ligada ao impacto humano. Lembro de uma verde adulta que chegou sem uma das nadadeiras. Mesmo amputada, nadava em círculos, insistia em subir para respirar, lutava para se equilibrar. A força daquele animal marcou minha vida. A cada melhora, cada mergulho mais firme, eu entendia o quanto elas lutam para viver — e o quanto é nossa responsabilidade tornar isso possível.
A fibropapilomatose foi outro choque de realidade. Animais cobertos de tumores, com sanguessugas presas às lesões, casco pesado de cracas. Para muitos, elas são “tartarugas sujas”. Para mim, tornaram-se símbolos da degradação costeira e da urgência de recuperar nossos ambientes.
Ver essas tartarugas tentando respirar, comer e se mover mesmo com tanto peso e deformidades sobre o corpo é algo que ninguém esquece.
Apesar de tudo isso, os momentos de campo renovam qualquer esperança e nos fazem refletir. Em mergulhos, ver uma tartaruga-verde deslizando com suavidade, como se fosse parte da água, é testemunhar algo quase espiritual. É o encontro com um animal antigo, fundamental para os ecossistemas e, ao mesmo tempo, vulnerável como poucos.
Trabalhar com elas me ensinou mais do que qualquer curso ou livro. Me mostrou que cada tartaruga reabilitada e devolvida ao mar é uma vitória não só para a espécie, mas para toda a vida costeira que depende dela. E um grande lembrete e pedido de ajuda das nossas áreas costeiras.
E confirmou meu caminho: estar ao lado desses animais, protegê-los e lutar para que continuem existindo — apesar de tudo o que o ser humano coloca no caminho delas.
Tartaruga-verde
(Chelonia mydas)


